Secretaria de Negros e negras do PSTU
Neste 20 de Novembro homenageamos 315 anos da morte de Zumbi dos Palmares, um dos principais líderes das rebeliões quilombolas e os 100 anos da Revolta da Chibata e a luta do marinheiro João Candido. Assim como Zumbi João Candido, precisamos relembrar a luta de Dandara, Acotirene, Luiza Mahim, Solano Trindade, dos Panteras Negras, de Malcolm X, todos aqueles que lutaram contra a opressão sexual, racial, homofóbica e contra a exploração capitalista.
Quase 500 anos se passaram desde que os primeiros negros escravizados começaram a serem trazidos ao continente americano. Apesar de toda a luta do povo negro no Brasil, no Haiti e nos EUA contra o racismo e as políticas genocidas e de embranquecimento das elites desses países, hoje, em pleno século XXI, ainda temos muitas lutas a construir.
Por um novo movimento negro, classista e independente
Os ataques à população negra, agravados, agora, com a crise econômica, revelam que está na ordem do dia a luta contra a opressão e a exploração. Precisamos nos organizar e fortalecer a Central Sindical e Popular (CSP-Conlutas), como alternativa de luta dos trabalhadores do campo e da cidade, da juventude e dos setores mais oprimidos. Através do Movimento Negro Quilombo Raça e Classe, estamos dando os primeiros passos na consolidação deste novo movimento negro independente de governos, partidos, patrões, de oposição às políticas do governo Lula e socialista, que leve de forma conseqüente as reivindicações históricas do povo negro.
A liberdade que nós negros e negras necessitamos só virá com emprego e salários, moradia, saúde e educação dignos. Precisamos estar ao lado do conjunto dos trabalhadores construindo lutas por melhores condições de vida, contra todo tipo de opressão e exploração.
" A Consciência Negra é uma atitude da mente e um modo de vida; o chamado mais positivo que num longo espaço de tempo vimos brotar no mundo negro. A Consciência Negra é, em essência, a percepção pelo homem negro da necessidade de juntar forças com seus irmãos em torno da causa de sua opressão – a negritude de sua pele – e de agir como um grupo, a fim de se libertarem das correntes que os prendem em uma servidão perpétua. Procura provar que é mentira considerar o negro uma aberração do “normal”, que é ser branco. É a manifestação de uma nova percepção de que, ao procurar fugir de si mesmos e imitar o branco, os negros estão insultando a inteligência de quem quer que os criou negros. Procura infundir na comunidade negra um novo orgulho de si mesma, de seus esforços, seus sistemas de valores, sua cultura, religião e maneira de ver a vida.
Por isso, pensar segundo a linha da Consciência Negra faz com que o negro se veja como um ser completo em si mesmo. Torna-o menos dependente e mais livre para expressar sua dignidade humana. Ao final do processo, ele não poderá tolerar quaisquer tentativas de diminuir o significado de sua dignidade humana. O negro quer conquistar a liberdade por todos os meios que considerar adequados. Na essência deste pensamento está a compreensão dos negros de que a arma mais poderosa nas mãos do opressor é a mente do oprimido."
STEVE BIKO
NESTE NOVEMBRO, ALÉM DE REVERENCIAR ZUMBI DOS PALMARES VAMOS COMEMORAR:
100 anos da REVOLTA DA CHIBATA
UMA LUTA DE RAÇA E CLASSE!
João Cândido foi à referência desta revolução popular feita pelos marinheiros negros em 22 de Novembro de 1910, no Rio de Janeiro (capital da República), por ter tido oportunidade de participar de cursos em outros países, e de presenciar a organização operária e dos marinheiros que fizeram à primeira greve naval na revolução russa (1908)...
Estas vivências e experiências internacionais lhe deram destaque na liderança desta revolta popular, segundo o “historiador Nascimento” tiveram outras lideranças como Ricardo Freitas, Francisco Dias Martins “O mão Negra” que escrevia as cartas ameaçadoras, cabo Gregório entre outros. Apesar de o objetivo principal da revolta, ser por fim aos castigos corporais, também lutavam por melhorias das condições de trabalho, contra os baixos salários na Marinha à época, e contra o tratamento discriminatório das elites dos oficiais...
Naquela época, a partir da luta direta da armada militar, que acabou paralisando a Capital do país (Rio de Janeiro) por uma semana, e exigiu do poder Executivo e Legislativo, que se curvassem às reivindicações dos marinheiros em luta pelo fim dos castigados corporais, ainda aplicados na Marinha, e que “seria” o último elo ainda existente, com a época imperial e o regime da escravidão, apesar de já haver se passado vinte dois anos da Abolição da Escravatura...
Esses sujeitos históricos, que eram em sua maioria marinheiros negros e seus lideres, que pensaram e orquestraram ações revolucionárias, e hoje conhecidas como a Revolta da Chibata - foram invisibilizados, apagados da História do Brasil, por serem negros. Esses marinheiros negros e pobres incluíam as suas, as reivindicações da classe trabalhadora, em um cenário onde as elites governantes criminalizavam as lutas proletárias, que estavam iniciando na formação dos sindicatos de base operária, juntamente com as experiências dos imigrantes europeus...
Essa luta teve uma vitória parcial, mas foi comemorada pelos marinheiros com um “viva a liberdade”, que durou pouco, pois o poder vigente das elites conservadoras se reagruparam para atacar os lideres da revolta da chibata um mês depois com um decreto de estado de sitio, para melhor oprimir e explorar as massas trabalhadoras em sua maioria negra, e consequentemente, as instituições conservarem-se racistas e elitistas em todos as áreas do mundo do trabalho...
As elites militares, não tinham como ordenarem a prisão dos marinheiros anistiados, em 22 de novembro 1910, então, aproveitando um episódio acontecido no Rio Grande do Sul, de um novo levante de marujos, e que não foi bem sucedido. Desdobrando, em que os marinheiros anistiados em novembro no Rio de Janeiro foram arrolados aos fatos, e através de provas como os bilhetes, e denúncias feitas de superiores diretos de dentro da Marinha de Guerra...
Com esse fato histórico o governo Hermes da Fonseca instalava o estado de Sitio, perseguindo os marinheiros que haviam recebidos a anistia em novembro do mesmo ano e com isto vingariam os oficiais mortos na Revolta da Chibata, alegando ordens de se insubordinarem, então ordenam a prisão dos 18 marinheiros entre eles João Cândido, seus superiores, encaminhando-os para a prisão na ilha das cobras, sendo torturados, e levados para morrer...
Acontece um fato inusitado, depois 90 dias dois sobreviventes, João Cândido estava entre esses, que apresentou sinais de problemas mentais sendo assim mandado para Hospício Nacional de Alienados para exames de sanidade mental, ficando 22 dias nesta instituição, e depois ficando mais dois anos na Ilha das cobras, tendo a sua absolvição no processo da segunda revolta, e logo após sendo expulso sumariamente dos quadros da Marinha, “injustamente”...
Havia todo um cenário de aumento de trabalho e de pouca valorização das classes subalternas naquela época onde o governo brasileiro usou o processo de vinda de imigrantes europeus para a política do branqueamento da população, com os incentivos de terra e moradia a imigração européia para a capital do país, usando esta política como forma de fragmentar e colocar diferenças entre a classe trabalhadora para melhor explorar e oprimir, o racismo foi e é uma forma de não corrigir injustiças entre aqueles que o estado nacional deve uma resposta racial e social...
A Lei de Anistia de João Cândido vem acirrar a contradição do estado brasileiro que através de mais de 122 anos de República não corrigiu as distorções sociais da população negra, e usam o mito da democracia racial onde todos são iguais perante a lei, na tentativa de que esqueçamos o passado, de crimes imprescritíveis, pois foi com o uso da mão de obra negra, a exploração, e criminalização destes seres humanos, que se construiu e constrói a história e as riquezas do tesouro nacional e da nação brasileira;
Ainda nos dias de hoje, é possível ver a história se repetir, orquestrada por um governo de frente popular, quando vemos, concessões ilimitadas de parlamentares negros e de partidos da base do governo Lula - com o apoio de algumas organizações negras - levarem à aprovação um Estatuto da “Igualdade Racial” esvaziado de suas propostas fundamentais, sem as cotas para negros nas universidades, nos partidos e nos serviços públicos; excluindo a garantia do direito a titulação das terras quilombolas e indígenas; a defesa e o direito a liberdade de pratica das religiões de matrizes africanas;
Sem se posicionar sobre a proteção da juventude negra que sofre verdadeiro genocídio por parte das policias militares dos estados, em especial no Rio de Janeiro, onde existe uma política de faxina étnica (preparando a cidade para a Copa e as Olimpíadas); E sem caracterizar o escravismo e o racismo como crimes de lesa-humanidade, conforme acordo internacional do qual o estado brasileiro é signatário. Por si só, o estatuto já é um retrocesso a todos os avanços, que vem se tentando conquistar ao longo dos anos, e sob a justificativa da constituição de um marco legal que representaria o reconhecimento da desigualdade racial no Brasil, na realidade aprovaram um documento de sugestões ao Estado Brasileiro.

Revolta da Chibata, à esquerda, secretário do chefe dos reclamantes, a direita, João Candido, chefe dos reclamantes – Rio de Janeiro 1910.

Revolta da Chibata, A bordo do navio Bahia, Rio de Janeiro 1910.

