Sobre empresários da terra e ecocapitalistas

 

Jair Pedro (PSTU), candidato ao governo de PE 

Agosto de 2010 

Quando Lula chegou ao governo federal em 2002, numa aliança com setores patronais, destacando-se aí justamente o seu vice, o mega empresário da indústria têxtil José de Alencar, abriu-se um período desastroso para a organização independente das classes trabalhadoras brasileiras. Não só porque Lula utilizou o prestígio conquistado ao longo de décadas junto às lutas dos trabalhadores para aplicar os planos econômicos da burguesia (contra-reformas de Estado, arrocho salarial, políticas compensatórias, privatizações, etc), mas, principalmente, por Lula e o PT terem trazido, com o governo de frente popular, um terrível retrocesso na consciência da classe trabalhadora. 

Nos anos 1970 e 1980, toda uma geração de trabalhadores (operários, estudantes, funcionários públicos, camponeses), aprendeu, nas grandes mobilizações que marcaram essa época, que os seus interesses e das suas famílias (salário, moradia, lazer, cultura, etc) são antagônicos aos interesses dos patrões e das classes dominantes. Que precisavam não apenas lutar por melhorias imediatas, mas necessitavam também criar instrumentos políticos que os representassem de forma independente e que apontassem para um novo tipo de sociedade para além do capitalismo. Das idéias “trabalhador vota em trabalhador” e “organização independente da classe” surgiram o PT e CUT. 

Não cabe aqui lembrar o triste fim que seguiram essas duas organizações. O importante é identificar que por esse retrocesso na consciência das classes trabalhadoras e na sua organização independente, pelo retorno à idéia de que “patrões e trabalhadores podem encontrar interesses comuns” e até governar juntos, base do conceito dos governos de frente popular, temos amargado grandes derrotas. A burocratização nos sindicatos, os acordos rebaixados, a aceitação de retiradas de direitos e a grande expectativa nos governos e candidaturas das frentes populares. 

Uma das tarefas centrais das candidaturas do PSTU é resgatar esse classismo, elevar a consciência dos trabalhadores, dialogar com eles e mostrar que existem saídas para essa situação de exploração, de vida precária e de desigualdade social. Que essas saídas devem surgir do interior das próprias classes trabalhadoras, por sua organização e por sua luta independente. Mostrar que Lula e Eduardo, infelizmente, governam para os patrões e não “para todos” como tentam passar. Denunciar o absurdo que é, por exemplo, Zé Rodrigues, presidente da FETAPE, entidade que representa os trabalhadores rurais no estado, apresentar-se como suplente do candidato a Senador, Armando Monteiro Neto, na chapa da frente popular no estado. 

A história dos Armando Monteiro no estado nos últimos 60 anos, está vinculada ao latifúndio, à monocultura da cana e à brutal exploração sobre os trabalhadores rurais. 

Nossa candidatura está ao lado dos trabalhadores rurais, apóia às ocupações de terra, defende uma reforma agrária radical sob controle desses mesmos trabalhadores e o fim da monocultura da cana. 

Fiquei espantado com as declarações elogiosas do candidato do PSOL, Edilson Silva, ao Sr Armando Monteiro Filho, pai do candidato ao senado pela chapa de Eduardo Campos (https://www.psolpe.org.br/a-biografia-de-dr-armando/). Foi um desrespeito às gerações de trabalhadores rurais que consumiram suas vidas no trabalho brutal dos canaviais. Armando Monteiro Filho foi um empresário e político que procurou manter-se coerente com a defesa da ordem social liberal democrática (nunca teve idéias socialistas). Não se vinculou ao golpe militar de 1964, mas não pode ser associado às lutas progressistas contra o poder do capital e das classes dominantes. Foi um defensor "coerente" e "ético" da ordem burguesa democrática. Ele, que nunca se chocou com os interesses fundamentais dos empresários, foi o alvo dos elogios e parabéns de Edílson Silva. Nossa defesa da independência de classe não se vincula a critérios e/ou características pessoais que individualmente algum empresário possa ter. A questão central é que os empresários, usineiros, banqueiros, etc, possuem uma função, um papel e interesses sociais diversos e antagônicos à função, ao papel e aos interesses imediatos e históricos dos trabalhadores. Não temos nenhuma ilusão de que esses interesses e papéis possam ser compatibilizados em favor de todos, como os governos Lula e Eduardo Campos tentam propagar. A declaração de Edílson Silva, portanto, cruza a fronteira de classe e, na essência, expressa a mesma política de Lula e Eduardo Campos. Edílson Silva parece querer se vincular à “burguesia progressista e democrática”. Essa tese não é nova e sabemos onde o movimento socialista se meteu ao segui-la. 

Quando fizemos o chamado ao PSOL para a formação de uma frente de esquerda, deixamos bem nítida a necessidade de que essa frente tivesse uma clara postura classista, sem alianças ou compromissos com setores burgueses, quaisquer que fossem. Infelizmente, a direção do PSOL ignorou nosso chamado e se esforçou por uma aliança com o PV (que acabou não se concretizando). 

Na época, já dizíamos que o PV de Marina Silva é um partido burguês de direita, que tem o mesmo programa de Dilma e de Serra, que em vários estados funciona como uma sigla de aluguel, e que nunca teve qualquer relação com a luta ambientalista. 

Vejamos o exemplo do Sr Sergio Xavier, que é candidato a governador aqui no estado e presidente do PV em PE.  Ele fez carreira em postos e cargos do governo Lula e nunca esteve em qualquer luta ambientalista dos trabalhadores aqui no estado. 

 

Onde estava esse senhor quando os trabalhadores rurais lutaram contra a liberação dos transgênicos ou contra a transposição do São Francisco? Onde estava esse senhor quando a população dos bairros pobres do Recife lutou por saneamento básico e por melhorias na coleta de lixo? Ou quando as populações de pescadores e moradores ribeirinhos lutaram contra a devastação dos manguezais por parte de grandes empresas que se instalaram em Suape? 

Por isso achei estranho que Edilson Silva tenha chamado publicamente no debate da TV Clube esse senhor para compor um hipotético futuro governo do PSOL no estado. Essa é a visão que tem o PSOL sobre meio ambiente e a luta dos ambientalistas? Se for, temos total desacordo. 

Para nós, a luta ambientalista está necessariamente ligada à luta dos trabalhadores por suas reivindicações e pelo socialismo. Não se pode falar em ambientalismo e ecologia enquanto multinacionais, grandes latifúndios e banqueiros ditam as ordens sobre a economia e a política no Brasil e em Pernambuco. Não se pode falar em ecologia e ambientalismo sem denunciar os governos de frente popular e a oposição de direita (e o próprio PV). Luta ambientalista e capitalismo são incompatíveis entre si. Qualquer luta ambiental hoje em dia é necessariamente anti-capitalista. Ao não levar isso em conta, Edílson Silva vincula o que não pode ser vinculado e convida um ecocapitalista para um hipotético governo seu. Rompe assim, por outras vias e mais uma vez, o critério da independência de classe. Se há alguns anos Edílson Silva tinha proposto uma aliança com Clóvis Correa, agora elogia um liberal e coerente defensor da ordem social do capital, o Sr Armando Monteiro Filho, e convida um candidato (Sergio Xavier) vinculado ao ecocapitalismo e à farsa da exploração sustentável da natureza (sustentável para o capital e para a sua acumulação) para ser seu secretário de governo. Parece haver um padrão político nos contatos e alianças que Edílson Silva procura realizar: aproxima-se cada vez mais dos representantes e mantenedores da ordem burguesa, dos “liberais democráticos”, e afasta-se dos movimentos sociais e partidos políticos que propõem a superação da ordem e do status quo atuais. A política de frente popular ressurge periodicamente nas atitudes e nas propostas de alianças feitas por Edílson Silva, ainda que ele procure se mostrar um combatente dela. 

O PSTU é um partido pequeno. Mas isso não nos exime da tarefa de continuar lutando pelo resgate do classismo, pelo avanço da consciência das classes trabalhadoras (que inclui a relação necessária entre luta ambientalista e luta anti-capitalista). Nossas candidaturas têm esse objetivo.